Em reunião na noite da última segunda-feira (19), senadores e
especialistas debateram possíveis alterações na Lei de Licitações e
Contratos (Lei 8.666/1993)
que possibilitem reduzir a corrupção e o desperdício de recursos
públicos. Os nove debatedores apresentaram diversas sugestões à relatora
Kátia Abreu (PSD-TO), que presidiu a maior parte da audiência pública
da Comissão Temporária de Modernização da Lei de Licitações.
Inicialmente a reunião foi presidida pelo senador Eduardo Suplicy
(PT-SP).
O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC),
Paulo Safady Simão, defendeu alterações na lei que reforcem as garantias
de cumprimento de contratos, tanto por parte das empresas contratadas
quanto por parte do governo. Para ele, também são necessárias novas
exigências e pré-requisitos para as empresas com o intuito de dar maior
proteção às administração pública.
Safady também sugeriu o estabelecimento de limites para os
aditamentos de contratos administrativos, cuja majoração não deve ser
superior a 25% do contrato original. Para o presidente da Cbic, também é
necessário simplificar os processos de comprovação de regularidade
fiscal exigida das empresas pelo poder público. Ele também defendeu a
extinção do chamado Regime Diferenciado de Contratações (RDC), nova
modalidade de licitação criada em 2011 para facilitar as obras das
Olimpíadas de 2016, da Copa do Mundo de 2014 e das obras do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC).
O vice-presidente de Articulação Política da Associação das Empresas
Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro), Jeovani Salomão,
sugeriu que sejam incluídos na Lei de Licitações regulamentos de
contratação setoriais, com regras específicas para os diversos setores.
Ele considera incongruente as mesmas regras serem exigidas, por exemplo,
para licitação de grandes obras arquitetônicas e para a compra de
programas de computador por parte dos governos.
Salomão sugeriu ainda a criação de mecanismos de arbitragem para
solução de conflitos e disputas de contratos de “grande vulto e mais
complexos”. Ele também pediu mudanças na norma que garantam vantagens
competitivas para as micro e pequenas empresas nas licitações públicas.
Para o presidente-executivo da Associação Brasileira dos
Distribuidores de Produtos Especiais e Excepcionais (Abradimex), Franco
Oliveira, é necessário que a Lei de Licitações tenha definições mais
claras de seus processos e instrumentos. Depois de 20 anos de vigência
da lei, disse ele, muitos “pontos duvidosos” ainda carecem de
esclarecimento.
O diretor-executivo da Associação Brasileira do Atacado Farmacêutico
(Abafarma), Jorge Froes Aguilar, sugeriu que a lei passe a exigir a
publicação dos editais de licitação ou de contratação públicas de
maneira mais completa e com prazo mínimo de 20 dias (atualmente os
editais são publicados com apenas uma semana de antecedência e de
maneira resumida).
O diretor-executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza
Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), Carlos Roberto Vieira da Silva
Filho, criticou o atual texto da Lei de Licitações por, segundo ele, dar
mais importância para o quesito do menor preço em detrimento dos
quesitos de qualidade e de eficiência na prestação de serviços ou
execução de obras.
A consultora jurídica da Federação Nacional das Empresas de Serviço e
Limpeza Ambiental (Febrac), Celita Oliveira Sousa, disse que a Lei de
Licitações precisa sim ser atualizada, porém acrescentou que a mudança
mais necessária é na mentalidade das autoridades pública e dos
empresários para que a cultura da propina perca força no país.
Kátia Abreu concordou que nenhuma alteração legislativa vai
“consertar o caráter de algumas pessoas”. Para a senadora, o Brasil
precisa punir de maneira mais rápida e mais dura a corrupção.
Também participaram do debate o representante da Associação
Brasileira de Resíduos Sólidos e Limpeza Pública (ABLP), Luciano Engholm
Cardoso, o presidente do Conselho de Arquitetura e Ubanismo do Brasil
(CAU-BR), Haroldo Pinheiro Villar de Queiroz, e o presidente do
Instituto dos Arquitetos do Brasil no DF, Paulo Henrique Paranhos de
Paula e Silva. Todos concordaram sobre a necessidade de criação de mais
mecanismos que coíbam servidores públicos envolvidos com licitações e
contratos de pedirem propinas para empresas.
Presidida pelo senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), e tendo como
relator-revisor o senador Waldemir Moka (PMDB-MS), a comissão aprovou um
cronograma de três fases. A primeira é destinada a audiências públicas,
às segundas-feiras, às 18h. A segunda fase de trabalho da comissão será
destinada a estudar as sugestões e críticas colhidas nas audiências
públicas e compará-las com os projetos que tramitam no Congresso sobre o
assunto. Também nessa fase será elaborada a minuta de um projeto de
lei. A relatora disse que há muitos projetos bons e que a ideia é
aproveitá-los, não dispensá-los.
A última fase de trabalhos, que deverá ser concluída até o dia 8 de
outubro, será destinada à discussão da minuta e deliberação sobre a
versão final do projeto.
A relatora Kátia Abreu lembra que a Lei de Licitações e Contratos, em
seus mais de 20 anos de existência, já foi objeto de mais de 600
propostas de mudanças. Já foram apresentados 518 projetos de iniciativa
da Câmara dos Deputados, 157 do Senado, e 50 medidas provisórias do
governo com o objetivo de alterá-la.
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